Em entrevista à Folha de S. Paulo, Manuela Carneiro da Cunha trata da internacionalização da Amazônia e do modelo de desenvolvimento adotado pelo Governo Lula

Posted on 25/10/2009

0


A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha em sua casa em São Paulo. Foto de Letícia Moreira - 20.out.09/Folha Imagem

A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha em sua casa, em São Paulo. Foto de Letícia Moreira - 20.out.09/Folha Imagem

Reproduzimos neste post alguns trechos da entrevista com a antropóloga brasileira Manuela Carneiro da Cunha que o Caderno Mais!, da Folha de S. Paulo, publicou neste domingo.

Recém aposentada da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, a professora é um dos principais nomes da antropologia brasileira.

Publicou nove livros e 32 artigos em periódicos especializados, além de 23 capítulos de livros.

Recebeu oito prêmios e homenagens, entre os quais a Ordem do Mérito Científico e a medalha de Vermeil da Academia Francesa.

Manuela Carneiro da Cunha está de volta a São Paulo e na entrevista à Folha fala sobre seu mais novo livro, Cultura com Aspas, publicado pela Cosac Naify.

No diálogo com Caio Liudvik, colaborador do jornal paulistano, a entrevista trata da questão indígena no Brasil, do modelo de desenvolvimento adotado pelo governo Lula, da concessão do Prêmio Nobel ao presidente norte-americano Barack Obama e de uma possível internacionalização da Amazônia.

Seguem os trechos selecionados:

FOLHA – A sra. vê risco de internacionalização da Amazônia?
CARNEIRO DA CUNHA
– Acho que esse risco existe -e existiu sobretudo no período áureo da borracha- e que até talvez já tenha deixado de ser risco para ser um fato consumado. Já se fez o levantamento dos interesses, investimentos e terras de companhias estrangeiras na Amazônia? Já se pensou no que pode acontecer se esses interesses se virem ameaçados ou contrariados?
Até agora, parece-me que se olhou na direção errada. Usa-se o risco à soberania nacional como um espantalho para fins de outra natureza -por exemplo para contestar o direito dos índios às suas terras.

FOLHA – Como a senhora avalia o tratamento pelo governo Lula à questão dos direitos indígenas?
CARNEIRO DA CUNHA
– Por um lado, há que louvar sua coragem política, decidindo, por exemplo, homologar a terra indígena Raposa/Serra do Sol, contra a bancada roraimense e outros interesses -e defendendo sua posição diante do STF. O ministro Tarso Genro [Justiça] tem também sido muito ativo na declaração de terras indígenas, embora o que importe do ponto de vista prático é a finalização do processo de homologação.
Isso posto, o PAC, a opção por uma política de desenvolvimento à moda tradicional, isto é, pelo modelo exportador de commodities e de expansão da infraestrutura energética e rodoviária para servi-lo, deixa as questões ambientais e indígenas forçosamente em segundo plano. Em caso de conflito, elas perdem.
Outro setor preocupante é o do atendimento à saúde indígena, que se deteriorou muito desde o primeiro mandato do Lula. Houve mudanças que parecem ter elevado os custos e baixado a qualidade.

FOLHA – Mas a ministra Dilma Roussef argumenta que, por mais importante que seja, a questão ambiental não pode trazer entraves para o desenvolvimento econômico. O que a senhora pensa disso?
CARNEIRO DA CUNHA
– Depende do que se entende por desenvolvimento, se é o aumento global do PIB ou melhor qualidade de vida para a população e para as gerações futuras. Hoje, os países da Europa ocidental só falam em desenvolvimento sustentável e Índice de Desenvolvimento Humano. Hoje, existe mercado de crédito de carbono, além de outros mecanismos para valorizar a floresta.
Por que o Brasil tem de seguir tardiamente um modelo de desenvolvimento antiquado e predatório? Por que, para fornecer commodities, temos de acabar com outros recursos importantes para nosso futuro?

FOLHA – Uma candidatura presidencial como a de Marina Silva terá chance se colocar como tema mais importante a questão ambiental?
CARNEIRO DA CUNHA
– A candidatura de Marina Silva é um fato político novo e teve de saída a virtude de colocar a questão ambiental na pauta do debate dos candidatos à Presidência. Mas, de forma realista, se a mídia confinar sua candidatura como sendo apenas ambiental, provavelmente reduzirá suas chances eleitorais.

FOLHA – A sra. vive em Chicago, terra do presidente Obama. Como avalia (e como avalia a percepção dos americanos sobre) este primeiro ano de seu governo? O que pensa sobre ele ter ganho o Nobel da Paz?
CARNEIRO DA CUNHA
– Aposentei-me em julho da Universidade de Chicago e, embora continue participando de algumas atividades lá, mudei-me de volta para São Paulo. Das últimas vezes que estive em Chicago, ficou claro que há, em vários setores muito diferentes entre si, decepção com o governo Obama.
Mas Obama, dada a grande esperança que foi depositada nele e as condições políticas dos EUA, não podia deixar de decepcionar os setores mais progressistas.
Tentar aprovar no Congresso uma reforma do sistema de saúde e fazer face à situação cada vez pior no Afeganistão e no Paquistão -só para citar apenas dois dos seus maiores problemas- exigem mais do que jogo de cintura e deixam em segundo plano outras promessas de quando era candidato.
Acho, como tantos outros, que o Nobel da Paz outorgado a Obama teve vários motivos e significados.
Entendo-o como um mandato e um encorajamento para que cumpra o que o mundo espera dele: que se chegue a uma paz entre israelenses e palestinos com a criação de um Estado palestino; que haja uma diplomacia eficaz para resolver as tensões dos EUA com o Irã e a Coreia do Norte; que se encontre uma saída para a guerra no Afeganistão; que se progrida no desarmamento nuclear mundial; que se feche de uma vez Guantánamo. Suas recentes manifestações a favor do desarmamento nuclear e as aberturas de diálogos diplomáticos são pouca coisa, é certo, diante de tão grande expectativa. O Nobel da Paz, que surpreendeu a todos, inclusive ao outorgado, é portanto ao mesmo tempo um desabafo anti-Bush e um voto de confiança e empurrão para que Obama entregue o que dele se espera.

Clique aqui para ler a íntegra da entrevista no site da Folha de S. Paulo (é preciso ser assinante do jornal ou do UOL).

Anúncios
Posted in: Ideias