Estudo revela que cobertura de jornais brasileiros sobre mudanças climáticas está mais atenta ao cenário nacional

Posted on 15/09/2009

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Da agência de notícias ANDI

A imprensa brasileira aumentou a cobertura do tema mudanças climáticas com foco na realidade nacional, revela uma análise feita pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI), com apoio da Embaixada Britânica no Brasil.

O documento (clique aqui) apresenta os principais resultados do monitoramento de 50 jornais de 26 Estados brasileiros e do Distrito Federal, em dois períodos: julho de 2005 a junho de 2007 e julho de 2007 a dezembro de 2008.

De acordo com o estudo, dentre as matérias que se prendem a localidades específicas, as referências ao contexto brasileiro aumentaram de 42,7%, no primeiro período analisado, para 72,3%.

Outro dado que mostra uma abordagem mais ligada à realidade nacional diz respeito à percepção sobre as responsabilidades dos governos estrangeiros e as que cabem ao Brasil.

No período de 2005 a 2007, líderes de outros países eram vistos como os principais responsáveis por apresentar respostas ao problema (24%), enquanto na segunda fase da investigação essa demanda foi transferida para o Executivo brasileiro (32,2%).

Essa tendência, ainda que recente, pode ser facilmente percebida na referência cada vez maior às iniciativas assumidas no âmbito do Governo Federal e ao debate em torno da adoção de metas internas de redução de emissões, bem como à repercussão de estudos sobre os impactos do fenômeno em território nacional lançados no decorrer do período.

O número de matérias que destacam a posição adotada pelo Brasil em relação às metas cresceu de 3,7% para 11,8%.

Convém ressaltar que o interesse maior pelos temas nacionais também é conseqüência da diminuição de “ganchos” internacionais, que forçaram positivamente a imprensa brasileira a dedicar mais atenção ao plano doméstico.

Entretanto, cabe lembrar que, de forma geral, após um período de pico entre o último semestre de 2006 e início de 2007– proporcionado pelo lançamento de pesquisas importantes sobre o impacto das Mudanças Climáticas e a consequente mobilização da comunidade internacional – a atenção dedicada ao fenômeno pelos jornais brasileiros assumiu uma tendência decrescente.

“É interessante observar o amadurecimento da cobertura, que teve como ponto de partida a divulgação do quarto relatório do IPCC, em 2006”, diz o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, José Marengo.

Para José Luiz Marengo, do INPE, o Plano Nacional do Clima e as ações de combate ao desmatamento teriam chamado a atenção para o tema

Para José Marengo, do INPE, o Plano Nacional do Clima e as ações de combate ao desmatamento teriam chamado a atenção para o tema

“Já a atenção aos assuntos nacionais teve como base iniciativas importantes, a exemplo do lançamento do Plano Nacional sobre o Clima, e ações de combate ao desmatamento”, completa.

O pesquisador também lembra que ao mesmo tempo houve a divulgação de estudos sobre cenários futuros para área de saúde, energia e agricultura no Brasil, e enfatiza que a imprensa, ao acompanhar as iniciativas governamentais mais de perto, pode fortalecer seu papel de fiscalização sobre os atores públicos.


Meio ambiente não está à parte

A análise de mídia também constatou que, além do enquadramento ambiental, houve razoável número de notícias (e com tendência de crescimento) que apresentaram enfoque econômico (15,5% e 18,7%, no primeiro e segundo período respectivamente) ou político (11,5% e 15,8%, respectivamente).

O debate sobre desenvolvimento também registrou aumento entre os dois períodos: de 15% para 19%.

Na avaliação da coordenadora do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas, Rachel Biderman, estes avanços são insuficientes, pois a sociedade está em um processo de reflexão sobre o modelo de desenvolvimento econômico adotado até agora e cobra uma nova perspectiva.

Rachel Biderman, da Fundação Getúlio Vargas, gostaria de ver mais cobrança na imprensa brasileira

Rachel Biderman, da Fundação Getúlio Vargas, gostaria de ver mais cobrança na imprensa brasileira

“O papel da mídia é fundamental e, portanto, as informações divulgadas sobre esse tema devem ser aprofundadas. Seria muito bom ver um número maior de matérias na imprensa brasileira com cobranças aos atores relevantes. Por exemplo: Por que o Brasil ainda não tem um estudo do impacto das mudanças climáticas na economia brasileira? O quê falta para que a Política Nacional do Clima seja aprovada pelo Congresso?”, ponderou a especialista durante o 2º Encontro Jornalismo, Política e Clima, realizado em Brasília em 28 de julho de 2009.

Rachel Biderman também destaca a importância de uma cobertura contextualizada para as eleições de 2010.

“É fundamental ouvir dos candidatos à Presidência da República e dos futuros senadores qual é sua posição em relação ao clima. Em tempos de crise política no Congresso Nacional, falar sobre clima parece loucura. Porém, é necessário cobrar dos nossos deputados e senadores políticas efetivas.”

O jornalista Washington Novaes também considera que pouco se avançou entre o discurso e a prática nos últimos anos e ressalta a urgência de ampliar o foco de cobertura desse tema.

“É preciso abandonar o velho hábito de considerar o meio ambiente, e agora especificamente a questão climática, como um assunto à parte das grandes decisões. Essa agenda deve estar no centro do debate do desenvolvimento”, enfatiza Novaes.

“É preciso abandonar o velho hábito de considerar o meio ambiente, e agora especificamente a questão climática, como um assunto à parte das grandes decisões", diz o jornalista Washington Novaes

“É preciso abandonar o velho hábito de considerar o meio ambiente, e agora especificamente a questão climática, como um assunto à parte das grandes decisões", diz o jornalista Washington Novaes

Como enfrentar o problema?

O estudo da ANDI aponta também que a menção na mídia brasileira sobre causas e soluções relativas aos fenômenos climáticos se manteve estável entre os dois períodos.

Causas marcando em torno de 36% e Soluções de 41%.

Por outro lado, a referência às Consequências sofreu uma redução expressiva de 58,5% (2005/2007) para 34,4% (2007/2008).

Por outro lado, a preocupação sobre aspectos relacionados ao enfrentamento às mudanças do clima é crescente.

O percentual de matérias que se referem a estratégias de mitigação atingiu patamares bastante expressivos ao longo de todos os períodos analisados, registrando aumento quando se comparam os dados ao longo dos períodos analisados: de 45,5% para 51,1%.

Dentre as estratégias de mitigação mencionadas, houve maior foco no setor energético em 2005/2007 (45,1%) e na utilização do solo e das florestas em 2007/2008 (25,4%).

Outro destaque da análise está relacionado à abordagem sobre recursos de Adaptação que registrou aumento significativo ao subir de 3,6% para 11,9%.

“A cobertura estava centrada sobre as consequências, como cenários de seca, de inundações, do aumento do nível do oceano, entre outros impactos. Porém, agora a sociedade quer saber quais as soluções e quem vai pagar a conta das iniciativas de mitigação. Aspectos econômicos têm sido abordados com mais ênfase porque discutir essa questão é fundamental para passar do discurso à ação”, enfatiza José Marengo.

Washington Novaes complementa, destacando a importância de uma abordagem mais abrangente: “A mídia deveria acompanhar sistematicamente o assunto e não apenas o impacto em si. Um exemplo é o caso dos soterramentos e mortes em Santa Catarina. É preciso enxergar as causas sociais desse desastre. As pessoas ocuparam durante muito tempo áreas de preservação inadequadas para moradia ou construções. As inundações que ocorrem são decorrentes de construções de prédios e casas nas planícies nativas de inundações dos rios. Então, tudo isso deve ser levado em conta diariamente”, ressalta Novaes.

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