Projetos artísticos discutem e tensionam o conceito de sustentabilidade

Posted on 09/09/2009

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Durma num sofá de uma família dinamarquesa e participe de um trabalho de arte

Durma num sofá de uma família dinamarquesa e participe de um trabalho de arte

Antônio Martins Neto

Entre os dias 07 e 18 de dezembro, a capital da Dinamarca, Copenhague, vai ser invadida por cerca de quinze mil delegados das Nações Unidas e por outros milhares de cientistas, jornalistas e ativistas ambientais que juntos vão discutir os rumos da Terra diante de um dos seus principais desafios: as mudanças climáticas.

Os hotéis e albergues da cidade talvez não sejam suficientes para acomodar tanta gente atraída pelo COP 15, como tem sido chamada a grande conferência, e por isso cinco mil moradores de Copenhague vão ceder os sofás de suas casas para um número igual de visitantes.

Será uma acomodação gratuita, por pelo menos dois dias.

Trata-se de uma estratégia de recepção baseada na boa vontade e na consciência dos moradores da cidade, mas no mundo da arte contemporânea a experiência é também uma projeto conceitual, aqui intitulado de New Life Copenhagen.

Segundo os organizadores, a opção free deve atrair principalmente membros de ONG´s, que em geral viajam com poucos recursos, mas qualquer pessoa pode se inscrever.

“Nós queremos mostrar que a Dinamarca é um país hospitaleiro”, diz o líder do projeto Sixten Kai Nielsen, em entrevista ao blog da conferência.

De acordo com o projeto, um grupo de artistas deve lançar a hóspedes e anfitriões cinco desafios que sirvam de inspiração para um estilo de vida sustentável.

“Esse projeto explora a idéia de usar dez mil pessoas para que todos pensem coletivamente, e como a arte pode contribuir durante uma negociação como essa”, explica Nielsen.

Entre os artistas que fazem parte do projeto está o coletivo dinamarquês Super Flex, que na Bienal de Veneza de 2003 apresentou o trabalho Guaraná Power, cujo discurso político conectado com o conceito de sustentabilidade o fez ser censurado pela Fundação Bienal de São Paulo durante a abertura da mostra em 2006.

Trabalho do Super Flex, coletivo de artistas da Dinamarca, discute a exploração dos plantadores de guaraná no Amazonas

Trabalho do Super Flex, coletivo de artistas da Dinamarca, discute a exploração dos plantadores de guaraná no Amazonas

Guaraná Power questiona o monopólio exercido pelas grandes indústrias fabricantes de sucos e refrigerantes de guaraná, que tabulam o preço da semente num valor irrisório, de forma a prejudicar os agricultores.

O coletivo de artistas da Dinamarca, no entanto, decidiu pagar R$ 15,00 pelo quilo de semente, em vez dos R$ 7,00 pagos pela indústria aos plantadores de Maué, no Amazonas, numa experiência que gerou muita discussão sobre práticas sociais e econômicas.

Diante da impossibilidade de mostrar o trabalho na Bienal de São Paulo de 2006, apesar de selecionado pela curadoria, o grupo resolveu distribuir o produto nas aberturas das exposições que ocorrem em São Paulo na semana de inauguração da grande mostra, e a discussão se estendeu aos limites da arte.

A Casa Azul

O conceito de sustentabilidade também gravita o universo da artista holandesa Jeanne van Heeswijk, de Roterdã, que em seus projetos desenvolve um ativismo lento, cujos resultados são alcançados a longo prazo.

Um dos mais proeminentes é o projeto Casa Azul, literalmente uma casa situada numa ilha artificial construída pela Prefeitura de Amsterdã, como forma de ampliar a oferta de residências na cidade.

O bairro levantado sobre a ilha foi inteiramente planejado, mas devido ao cronograma das obras os moradores foram obrigados a viver durante um bom tempo sem escola, biblioteca, supermercado, clube e demais áreas de lazer.

Casa Azul é um catalizar de transformações em comunidade planejada de Amsterdã

Casa Azul é um catalizar de transformações em comunidade planejada de Amsterdã

A Casa Azul da artista, no entanto, passou de espaço privado a púbico e nele os moradores puderam encontrar o que necessitavam mas que não era disponibilizado pelos construtores.

Durante uma época, por exemplo, um dos cômodos da Casa Azul passou a ser usado pelos jovens como espaço de socialização.

Em outra, a casa passou a receber doação de livros e manter um espaço para leitura.

“A casa tem se transformado num catalizador de mudanças para uma vizinhança que busca não se enquadrar no estigma de conflituosa”, explica a curadora e crítica de artes Cristiana Tejo.

Conflitos que acabam sendo absorvidos pela Casa Azul na sua relação com sociedade e autoridades.

É presente a desconfiança de que não se trata de um artístico e não raro o projeto é alvo de ações na justiça.

“É justamente a capacidade de agregar e de lançar pontes entre os campos de conhecimento, além de seu interesse em melhorar a qualidade de vida, que aumenta sua proximidade com o tema da sustentabilidade e lança novas questões para a arte que se consolida no Século XXI”, completa Tejo.

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Posted in: Cultura