Aos poucos, jornais brasileiros descobrem a importância da sustentabilidade, afirma ombusdman da Folha de S. Paulo

Posted on 06/09/2009

0


Para ombudsman, "a complexidade científica, ideológica e política das questões ambientais constitui um grande desafio para o jornalismo".
Para ombudsman, a complexidade científica, ideológica e política das questões ambientais constitui um grande desafio para o jornalismo.
Antônio Martins Neto

Reproduzo aqui a coluna deste domingo do Ombudsman da Folha de S. Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva, que trata do espaço crescente dado pelos jornais brasileiros a temas ambientais e referentes à sustentabilidade, foco desse blog.

O jornalista avisa ainda sobre o estudo “Mudanças Climáticas na Imprensa Brasileira”, que a Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI) disponibiliza em seu site depois de amanhã e cujas informações também devemos publicar aqui.

Segue a coluna do Ombudsman

Jornalismo e política ambiental


A prioridade dada a assuntos relativos a sustentabilidade é boa notícia e indício de como cresce essa preocupação


Carlos Eduardo Lins da Silva

Na quarta e na quinta passadas, a manchete deste jornal não foi sobre os temas que usualmente merecem a distinção (política e economia). Foi sobre políticas públicas ambientais: desmate da Amazônia e imposição de limites de emissão de poluentes para automóveis a gasolina e álcool.

A prioridade dada a assuntos relacionados com sustentabilidade é boa notícia e indício de como tem aumentado essa preocupação no Brasil. Tal alteração na agenda coletiva do país também é constatada no estudo “Mudanças Climáticas na Imprensa Brasileira”, que a Andi (Agência de Notícias dos Direitos da Infância) lança nesta terça, quando poderá ser acessada emwww.mudancasclimaticas.andi.org.br A pesquisa monitorou 50 jornais diários entre 2005 e 2008 e comprova como vem crescendo o espaço dedicado especificamente a problemas como o efeito estufa, fontes de energia, consequências das alterações do clima, estratégias para mitigá-las etc..
Também mostra como se amplia consistentemente a valorização da cobertura desses temas aplicados ao contexto brasileiro e especificamente ao de regiões do país.

Claro que nem tudo são flores e ainda há muitos problemas a serem superados, entre eles o das faltas de diversidade de fontes e de dissenso conceitual no material publicado, um dos temas, aliás, de que trata o livro indicado ao final, que faz uma abordagem engajada e militante do jornalismo ambiental.

Quando eu defendi tese de mestrado sobre meios de comunicação de massa e meio ambiente, 33 anos atrás, o panorama era muito diverso. Menções a problemas ecológicos na mídia brasileira eram raras e mal arranhavam a superfície dos assuntos abordados. Pessoas como Ernesto Zwarg, que morreu há dez dias, aos 84 anos, e na década de 1970 corajosamente liderou diversas ações de conscientização ambiental no litoral sul de São Paulo como precursor de métodos celebrizados pelo Greenpeace, eram consideradas exóticas.

Agora, líderes transitam entre política e ambientalismo, a ponto do ex-vice-presidente dos EUA Al Gore desprezar as eleições para se dedicar a alertar o mundo sobre o aquecimento global e obter os prêmios Nobel e Oscar (com o filme recomendado abaixo) e a ambientalista Marina Silva ser cotada como aspirante à Presidência do Brasil, com boas chances de expressiva votação. A complexidade científica, ideológica e política das questões ambientais constitui um grande desafio para o jornalismo. Por exemplo, nesta semana, em que se comemorou a notícia de que o desmate da Amazônia diminuiu em 2009, revelou-se, em boa reportagem deste jornal, que, mesmo com taxas menores de derrubada da floresta, é possível que a emissão de carbono provocada por ela aumente. Para ser eficaz, o jornalismo tem de reportar fatos com precisão, argúcia, espírito crítico, o que é sempre complicado, mas especialmente vital nos temas de ambiente.

PARA LER
“Comunicação, Jornalismo e Meio Ambiente”, de Wilson da Costa Bueno, Mojoara Editorial, 2007 (a partir de R$ 18)

PARA VER
“Uma Verdade Inconveniente”, de Davis Guggenheim, 2006 (a partir de R$ 19,90)

Anúncios